Quantas vezes já ouvimos falar que bons livros dão filmes ruins e vice-versa. Bobagem. Temos boas adaptações de Hamlet para cinema. O Romance Os Miseráveis de Victor Hugo foi adaptado brilhantemente por Bille August. Stanley Kubrick era um mestre em suas adaptações, quase todos seus filmes são adaptações: Laranja Mecânica, De Olhos Bem Fechados, Barry Lyndon, Lolita só para citar alguns.
Para adaptar uma outra forma de arte para o cinema, a primeira coisa a se fazer é ter total "desrespeito" pelo autor da obra original. Qualquer forma de arte é única. Cinema, teatro, romances, poesias, prosas, etc. Todas são formas diferentes. Qualquer roteiro adaptado que tenta manter as mesmas qualidades de sua obra original está fadado torna-se uma obra cinematograficamente fraca. Já assistiu O Príncipe das Marés ou o mais recente O Senhor dos Anéis? Caso afirmativo, sabe do que estou falando.
Você poderá e, provavelmente terá, que criar novas cenas, mudar cenas e cortas cenas da obra original, aumentar ou diminuir o período de tempo em que acontece a toda a história ou parte dela, como aconteceu em O Três Dias do Condor, que na obra original eram sete. Poderá ser necessário até mudar o final, como no filme Hannibal, de Ridley Scott.
Uma grande dificuldade na adaptação, exceto no teatro, é traduzir a voz do narrador. Num romance, por exemplo, o narrador tem total liberdade para fazer qualquer comentário a qualquer momento da história; pode ir e vir na história a seu bel-prazer. Num roteiro sabemos que isso não é possível. Se o romance é em primeira pessoal, podemos adaptar trechos de sua narração com uma VOZ OFF, mas se o romance é em terceira pessoa, tal recurso torna-se mais difícil, porém não impossível.
Peças de teatro são mais fáceis de adaptar que romances, pois os recursos narrativos são semelhantes. A grande diferença entre uma peça e um roteiro é que o primeiro é contado inteiramente por diálogos e o segundo é contado tanto por diálogo como também por imagens, dando sempre preferência ao último.
Ao adaptar, você deve estar ciente que está escrevendo um roteiro para um filme. Um roteiro é para ser "visto", não para ser "lido". Se o escritor descreve de modo poético o sentimento que um homem tem ao perder seu melhor amigo, num roteiro você tem que fazer isso visualmente. Por exemplo, no romance Admirável Mundo Novo o personagem Bernard Marx sente-se inferiorizado em relação aos seus colegas de trabalho. Num romance basta dizer e isso e pronto, mas e num roteiro como faríamos? Teríamos de mostrar isso visualmente, criando cenas que não estão no romance, por exemplo.
Tenho uma dica que vale a pena: quando for escrever um roteiro adaptado, leia obra em questão uma ou duas vezes e depois escreva o seu roteiro do início ao fim sem consultar novamente a obra original. Depois que terminar o roteiro, se necessário, você pode re-ler algumas passagens da obra original para adaptar ao seu roteiro.
O importante é considerar cada forma de arte é diferente e você precisa compreender as características delas para realizar uma boa adaptação. Respeito demais pelo autor da obra original pode acabar lhe prejudicando.
