Quando, em 1999, chegou aos cinemas o primeiro filme da trilogia Matrix houve um grande reboliço por parte do público e da crítica. Consideraram o filme inovador, tanto em termos de conteúdo como de técnica. É a prova real do poder de uma boa publicidade em torno de um filme pelo menos mediano.
Exceto pelos efeitos especiais, o primeiro Matrix é tecnicamente convencional e não apresenta nada de novo desde a época de D. W. Griffith. Estou falando da narrativa, da montagem, da fotografia, da direção de arte e de atores. Em termos de conteúdo o filme é ainda menos inovador. Toda esse bla-bla-bla sobre os inovadores conceitos filosóficos de Matrix está presente na humanidade há muito tempo atrás. Basta lembrarmos dos conceitos de “A Caverna”, de Platão; nos estudos sobre a alienação presente no sistema produtivo capitalista, tão profundamente analisado por Karl Marx e, mais recentemente, nos romances literários “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley e no apocalíptico “1984” de George Orwell.
Na verdade, a história de Matrix já foi milhões de vezes narradas pela humanidade. É a mitologia do Herói, que foi profundamente estudada pelo mitólogo Joseph Campbell. Porém vamos deixar claro que o fato de Matrix não ser inovador sob qualquer ponto de vista (exceto efeitos especiais), não lhe tira o mérito. É totalmente normal e aceitável que as grandes histórias sejam recicladas pela humanidade, ganhando novas roupagens. Lembremos de “Guerra nas Estrelas” e suas mais diversas fontes de influência: mitologia, cristianismo, a lenda do Rei Arthur, a lenda de Fausto e muito mais. Ou ainda: será que ninguém percebeu a semelhança entre o desenho “O Rei Leão” e Hamlet de Shakespeare?
O primeiro Matrix é um filme bastante divertido, com boas seqüências de ação e ótimos efeitos especiais. O enredo é forte o bastante para prender a atenção do espectador do começo ao fim. A trama mantém-se sempre num crescendo e os diretores/roteiristas foram hábeis ao criar uma precisa identificação entre o público e herói. E também conceberam um bom vilão e, como já dizia Hitchcock, um filme é tão bom ou tão ruim quanto o teu vilão.
Para a continuação, Matrix: Reloaded, tudo era possível. Os diretores/roteiristas optaram por dar mais atenção as seqüências de ação e aos efeitos especiais do que elaborar um enredo atraente. Alias, a maior falha de Reloaded é o enredo. Já não nos identificamos tanto com protagonista como no primeiro filme. Apesar das revelações surpreendentes no decorrer do filme, elas causam muito menos impacto que no primeiro por uma simples razão: no primeiro VEMOS as revelações, enquanto no segundo OUVIMOS as revelações. Na sétima arte, o que é visto tem um impacto infinitamente maior do que é ouvido. E é isso no que consiste Reloaded: seqüências de ação mirabolantes, efeitos especiais mais elaborados (porém muito menos reais que do primeiro filme) e alguns diálogos totalmente explicativos sobre a natureza de Matrix.
Dentre as revelações mais importantes de Reloaded, podemos citar:
O Oráculo é um programa de computador;
Os humanos são levados a sentir esperança para o bom equilíbrio da Matrix;
Zion já fora destruída diversas vezes e Neo é o sexto “predestinado”;
E Neo e o “mundo real” também são um programa de computador, mas isso não fica bem explicado e esperamos pela resposta no terceiro filme;
Apesar de Reloaded ser inferior ao original, manteve a credibilidade da história e abriu novas pontas para serem discutidas no terceiro filme.
E aí vem Matrix Revolutions. O terceiro filme teve a oportunidade de amarrar toda a trama e fechar com chave de ouro o que poderia ter sido uma grande aventura de ficção científica; mas não foi isso o que ocorreu. O terceiro filme da saga é horrível, decepcionou e destruiu a credibilidade dos filmes anteriores. As pontas que foram abertas no segundo filme não são amarradas no terceiro. Nenhuma resposta é dada ao espectador... e mesmo que essa fosse a intenção dos diretores/roteiristas, eles simplesmente se abdicaram de desenvolver algum enredo para o filme. Revolutions consistem inteiramente em diálogos constrangedores, cenas de ação grosseiras, sem pé-nem-cabeça, e que nunca envolve o espectador nos dramas dos personagens. Vemos a grandes batalhas e explosões, mas ficamos indiferentes a tudo.
A Trilogia Matrix foi encerrada com um gostinho amargo devido o péssimo terceiro filme, ainda mais devido as boas expectativas geradas pelos episódios anteriores. Mas de qualquer forma, é uma boa diversão que já vem se mostrando desgastada e fatalmente será esquecida ao longo prazo, diferentemente de Guerra nas Estrelas que apesar de episódio final ser mais fraco que os anteriores, pelo menos fechou a saga com dignidade.
Charlie.

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