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ETAPAS DA PRODUÇÃO

INTRODUÇÃO

Em seus primórdios, o cinema era um reflexo da realidade, como nos documentários dos irmãos Lumière, mas a partir das fantasias de Méliès passou a ser valorizado como uma verdadeira arte, com seus próprios recursos expressivos. O cinema é um meio de comunicação de massa, uma arte coletiva, concebida como espetáculo que pode incitar à reflexão e ao mesmo tempo divertir. Assistir a um filme supõe isolar-se da vida cotidiana a fim de participar dos sentimentos e emoções que a película provoca; é freqüente uma interrelação entre o espectador e alguns personagens.


TEMPO E ESPAÇO

O trabalho no cinema combina tempo e espaço, de maneira diversa à de todas as outras artes, que utilizam ou o espaço (escultura) ou o tempo (música) para obter um ritmo narrativo. Cada imagem supõe uma composição plástica e mostra, em duas dimensões, um mundo tridimensional. O fotograma, menor unidade de expressão cinematográfica, é o fragmento de uma obra de arte, levando-se em conta sua composição, proporções, distribuição de pessoas e objetos, contrastes de claro e escuro e combinações de cor. Com o elemento temporal, o filme adquire um significado subjetivo, pois, salvo raras exceções, como High Noon, de Fred Zinnemann, o tempo de projeção não coincide com o tempo narrativo. O autor escolhe os momentos mais significativos e dispensa as cenas sem valor. Isso o leva a dilatar ou acelerar o tempo, segundo suas conveniências. O tempo se relaciona com o ritmo narrativo: em cenas de grande tensão o ritmo se acelera, em cenas de relaxamento ele se detém. Mestres do ritmo acelerado foram David Wark Griffith e a maioria dos cineastas americanos, e Serguei Eisenstein; do ritmo pausado, diretores nipônicos e franceses. Recursos próprios da literatura (palavras), do teatro (cenografia), da fotografia (imagem, luz), das artes plásticas (decorações, composições) são utilizados pela estética cinematográfica, que se vale, para isso, de recursos como os movimentos de câmara e a tomada de diferentes planos enquanto se roda o filme.


PLANO

A unidade básica de um filme é o plano, tomada feita pela câmara de uma só vez, sem interrupção. Graças à montagem, diferentes planos podem dar-nos uma visão completa de um objeto. Por exemplo, uma vasta paisagem, vazia ou com certo número de pessoas, corresponde ao plano de grande conjunto (PGC) ou panorâmico. No plano geral (PG), ator ou atores aparecem de corpo inteiro, a uma certa distância, inseridos no conjunto do cenário, cuja importância se ressalta. O plano médio (PM) mostra o ator mais próximo, de corpo inteiro, e apenas alguns pormenores do cenário, desta vez completamente subordinado à presença humana. O meio primeiro plano (MPP) ou plano americano mostra o ator dos joelhos para cima; o primeiro plano (PP) mostra o ator do peito para cima; o grande primeiro plano (GPP) ou close-up destaca o rosto; o pormenor (P) mostra partes do corpo e a inserção (I) destaca objetos.

Cada plano cumpre uma função expressiva: os gerais descrevem o ambiente onde transcorre a ação e os próximos realçam os sentimentos e emoções dos personagens, concentrando a atenção do espectador. Com esse objetivo, os planos se classificam também em fixos e móveis, estes ligados aos movimentos da câmara, fator primordial de subjetividade, pois o diretor escolhe os pontos de vista que melhor expressem suas idéias. O plano panorâmico, por exemplo, pode ser vertical ou horizontal; o plano de carrinho, ou travelling, faz a câmara aproximar-se ou afastar-se do objeto com certa lentidão, com o emprego de trilhos. Para rápidas mudanças de distância utiliza-se a lente zoom, no plano de zoom; e para uma abrangência que possa passar de um plano de detalhe para um plano geral, utiliza-se o plano em grua, feito com a câmara montada numa grua ou guindaste especial de filmagens. Finalmente, o plano-seqüência, longo e muito complexo, exige diversos movimentos da câmara, durante os quais toda uma cena é feita numa só tomada, sem cortes.


PRODUÇÃO

O cinema, como indústria, necessita de empresas produtoras que disponham de financiamento e estrutura para realizar filmes. O financiamento pode ser estatal ou privado. Os primeiros produtores foram também fabricantes de cinematógrafos. Após a guerra mundial de 1914-1918, a produção dos Estados Unidos, concentrada em Hollywood, começou a dominar o mercado internacional, com empresas como a Paramount, a Republic, a Universal, a 20th Century-Fox, a Metro-Goldwyn Meyer, a Warner Brothers, a Columbia, a United Artists e outras. Filmagem

Selecionado o tema e o pessoal técnico e artístico pelos produtores e obtido o financiamento, inicia-se a filmagem, orientada pelo diretor, considerado o autor da obra. Nos primeiros anos, as câmaras funcionavam a manivela, a uma velocidade aproximada de 16 imagens por segundo. Depois adotou-se o funcionamento com motores a uma velocidade de 24 imagens por segundo, no tamanho padrão de filmes de 35mm de largura.

A câmara usa diferentes tipos de lentes: de curto alcance, para grandes objetos a curta distância; grandes-angulares, para distâncias curtas e médias com amplo ângulo de visão e grande profundidade de campo; teleobjetivas, para objetos pequenos filmados a grande distância; e a zoom, de foco variável, que permite movimentos aparentes de aproximação sem necessidade de se mover a câmara.

O material utilizado para registrar imagens é uma fita de celulóide transparente e sensível que contém brometo de prata. As margens do filme apresentam perfurações para o arrasto tanto na câmara de filmar quanto no projetor. Utilizam-se hoje diversos formatos: 35mm, para profissionais e amadores; 8mm e super-8, para amadores (às vezes utilizado profissionalmente); 16mm, semiprofissional, mais econômico que o de 35mm; e excepcionalmente o de 70mm, para produções de filmes profissionais de efeitos espetaculares e orçamentos milionários.


MONTAGEM

Consiste a montagem ou edição em unir as diferentes cenas filmadas para obter uma ordem narrativa pré-estabelecida no roteiro. A colagem é feita com uma solução de celulose submetida a pressão. Os especialistas da montagem, que trabalham orientados pelos diretores, são os montadores ou editores. Fazem os cortes, colagens e, com recursos técnicos de laboratório, as superposições e trucagens que dão como resultado efeitos especiais


SONORIZAÇÃO

Após a montagem, executa-se a tarefa de pôr no filme os diálogos, ruídos e música, gravados antes, durante ou após as tomadas de imagem.

Os primeiros filmes foram realizados sem som. A projeção era acompanhada por pianistas, que improvisavam arranjos de músicas conhecidas, conforme o andamento do filme. Mais tarde, na tentativa de enriquecer o cinema de atrativos, algumas super-produções foram acompanhadas, na distribuição, por partituras escritas especialmente para que certos trechos do enredo se tornassem mais emocionantes. Nas grandes cidades, havia orquestras que executavam a partitura em momentos culminantes dos filmes mudos.

Nos primeiros filmes sonoros usava-se um gramofone para gravar o som. Desde 1928, a gravação sonora por procedimentos ópticos, nas trilhas ou bandas situadas entre as perfurações laterais da película e o fotograma, substituíram a gravação e reprodução em discos, chamada vitafone. A gravação direta na película denomina-se movietone. Mais tarde foi possível separar diálogos, música e ruídos em faixas distintas, por processos magnéticos. Gravados separadamente, podem ser reproduzidos numa trilha magnética de som estereofônico que, a despeito do custo de instalação da aparelhagem nos cineteatros, é mais realista e de efeito sonoro mais espetacular e detalhado.

O processo de acabamento final se chama mixagem, combinação dos processos de gravação que confere ao filme equalização e sincronização audiovisual (imagem mais som). Para a comercialização dos filmes em idiomas estrangeiros, nos países que não utilizam letreiros sobrepostos ou legendas, é necessária a dublagem, que substitui as vozes originais por diálogos gravados por dubladores.


PREVALÊNCIA DA COR

A ambição de filmar em cores nasceu com o cinema. O primeiro processo inventado para colorir filmes foi o tingimento a mão, e até a década de 1920 o sépia, o verde e o azul, isolados, enfeitavam filmes europeus, americanos e até brasileiros. Com o invento do cinema sonoro, aceleraram-se as pesquisas destinadas a descobrir um processo para filmar em cores. As primeiras tentativas se fizeram por meio de emprego de filtros coloridos: cada cena era filmada duas ou mais vezes, cada vez com filtro de uma cor, ou por várias câmaras simultâneas, uma com cada filtro. O filme bicolor foi muito empregado em Hollywood, após 1927, para enfeitar, sobretudo, trechos de musicais.

Lançado em 1922 em The Toll of the Sea (1922; O tributo do mar) e popularizado na década de 1930, no apogeu de comédias e operetas, o sistema Technicolor dominou por muito tempo o mercado do filme colorido. A experiência decisiva do processo tricrômico aconteceu com o filme Becky Sharp (1935; Vaidade e beleza), de Rouben Mamoulian. Os únicos competidores do Technicolor eram os sistemas Cinecolor, usado em filmes de baixo custo, e Eastmancolor, da Kodak. A cor se expandiu e novos tipos de cor, mais flexíveis e econômicos, como o alemão Agfacolor, o belga Gevacolor e o italiano Ferraniacolor, ameaçaram a hegemonia do processo americano.

O advento da tela larga, testada em raros cinemas com o filme The Big Trail (1930; A grande jornada), de Raoul Walsh, concretizou-se na década de 1950, quando a televisão começou a ameaçar Hollywood. Surgiram também câmaras mais leves, complexas e eficientes exigidas pelo Cinerama, Cinemascope, VistaVision, Todd-AO e outros processos de filmagem que buscavam a terceira dimensão. Isto impôs a invenção de outros tipos de películas coloridas. Logo o DeLuxe (da Fox), o Metrocolor (da MGM) e o Warnercolor destronaram o Technicolor. O Eastmancolor penetrou em outros centros produtores, inclusive no Japão.

Na década de 1960, mais da metade da produção mundial de filmes para cinema trocava o preto e branco pela cor. Vinte anos mais tarde, cem por cento das produções mundiais eram filmadas em cores, com raríssimas exceções produzidas por cineastas requintados que consideravam o preto e branco indispensável para certo filme, que, no entanto, devia ser filmado em cores e copiado em preto e branco.


DISTRIBUIÇÃO

Pronto o negativo do filme, este é multicopiado e comercializado por uma companhia distribuidora que pode pertencer ao mesmo grupo da produtora ou dedicar-se exclusivamente à distribuição. Ela se encarrega de alugar o produto a diversas salas de exibição, acompanhado de material publicitário, repartindo-se as rendas entre produtor, distribuidor e exibidor, segundo conveniências e normas comerciais que variam de país a país.


EXIBIÇÃO

Até 1950, aproximadamente, as proporções da imagem projetada em tela correspondiam à do fotograma. A altura e largura do filme mudo, por exemplo, mantinham relação de três por quatro, independentemente do tamanho da tela. Mais tarde foram realizadas muitas experiências de cinema panorâmico, deflagradas em parte pela concorrência da televisão.

As primeiras exibições cinematográficas ocorreram em cafés e feiras. Apareceram nos Estados Unidos as salas chamadas então de nickelodeons, porque o preço dos ingressos era uma moeda de cinco cents, ou níquel. As salas comerciais em geral pertencem a grandes companhias exibidoras que, nos últimos anos, dada a redução de público, vêm preferindo reunir várias salas pequenas num só local, como ocorre nos shopping centers.

Existem também salas de projeção especializadas em filmes que, por sua temática ou técnicas, se destinam a um público menor. São os chamados cinemas de arte. Há ainda salas que pertencem a cine-clubes e exibem filmes para platéias especiais ou agrupamento de aficcionados, que combinam a projeção com palestras e debates. Este último modelo se encontra, em geral, ligado a cinematecas, entidades que colecionam, conservam, restauram e exibem os filmes que marcaram a história do cinema e a evolução estética.

Para promover a comercialização dos filmes organizam-se mostras e festivais nacionais e internacionais, nos quais são apresentados os filmes mais recentes ou se fazem retrospectivas de épocas e de realizadores; é o caso de Veneza (o primeiro de amplitude mundial), Cannes, Berlim, Rio de Janeiro e Gramado RS. Os prêmios são conferidos, por categorias, a atores, diretores e demais integrantes da equipe técnica. O mais importante ($$$) prêmio do cinema é o Oscar, outorgado anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que constitui um incentivo à indústria e ao comércio do cinema.


CRISES E REAÇÕES

Da mesma forma como evoluíram as técnicas cinematográficas, desde os processos de filmagem até os de projeção e reprodução sonora, também ampliou-se o número dos centros de produção. Os países menos desenvolvidos, embora com menos recursos que os grandes centros da cinematografia mundial, entraram na competição e nela se sustentaram até meados da década de 1980, quando a recessão econômica mundial, decorrente da crise do petróleo da década anterior, manifestou-se em toda sua plenitude. Poucos anos depois, até mesmo franceses, italianos, ingleses e alemães mergulharam na crise do mercado cinematográfico e os americanos voltaram a dominar as praças de todo o mundo.

Na última década do século XX, após anos de crise, fechamento de casas exibidoras e produção voltada apenas para filmes de efeitos especiais ou dirigidos ao público infanto-juvenil, Hollywood passou a aplicar capital em refilmagens melhoradas de clássicos de outros gêneros, como o melodrama, a comédia romântica, o western, o horror sofisticado, a comédia disparatada e o policial. As rendas milionárias reanimaram os produtores, mas o custo desse renascimento foi o virtual desaparecimento das cinematografias dos países pobres.

Dentre os aperfeiçoamentos técnicos que durante certos períodos pareceram inovar a arte cinematográfica, alguns caíram em desuso. Entre eles se encontra o Cinemascope, inventado pelo francês Henri-Chrétien, que permitia comprimir a imagem ao filmar com uma lente anamórfica e restabelecer a imagem original na projeção mediante outra lente. Também foi abandonado o Cinerama, que abrangia toda a franja de visão do olho humano ao filmar com três câmaras, registrando cada uma um terço da cena, e projetar também em três segmentos numa tela côncava, dando ilusão de tridimensionalidade.