V de Vingança é um filme aclamado pela crítica e, até um determinado ponto, desacreditado pelos fãs. A notícia que os irmãos Wachowski, produtores de filmes como a trilogia Matrix, iriam produzir V de Vingança deixou os fãs do brilhante HQ idealizado por Alan Moore bastante preocupados. Isso porque, quem conhece seu estilo sabe que os quadrinhos são, do ponto de vista visual, extremamente cinematográficos. Em contrapartida, do ponto de vista intelectual, é preciso mais do que grandes explosões e litros de sangue falso para adaptar para o cinema, uma de suas obras.
Quando Moore decidiu enveredar para o lado da construção das histórias ao invés de desenhá-las também, é porque conhecia suas limitações como cartunista. Apesar disso, em nenhum momento ele falha ao escolher as pessoas que transformarão em imagens as suas palavras, seguindo um mesmo estilo moderno em seus quadrinhos.
V de Vingança é certamente uma de suas melhores histórias, em que seus personagens são pessoas marcadas por um governo injusto e totalitário, pessoas que lutam para não perder a esperança no mundo e em sí mesmas. O anti-herói da história é um mascarado que atende apenas pelo codinome "V", e pretende dar um fim a política do terror que reina em uma Inglaterra afetada por guerras e caos. V conhece a frágil Evey, que tem um passado misterioso devido à participação ativa de seus pais na política. V e Evey acabam estabelecendo uma relação de cumplicidade e enfrentam seus respectivos passados a partir disso.
Obviamente a transposição dos quadrinhos para o cinema feito pelos Wachowski teve uma atenção especial. Muitos takes foram recriados de forma quase idêntica e a direção de arte num todo como luz, fotografia, cenário e figurino seguiram à risca as idéias de Alan, o que foi um fator essencial para o sucesso do filme, pois o clima sombrio de ruínas, caos e falta de esperança é o elemento abstrato mais importante do filme.
Infelizmente, por conta da densidade da trama, o roteiro apresenta algumas falhas e pontos que não são devidamente expostos ao público. O que se torna importante ressaltar é que, apesar do herói querer restaurar a paz e a liberdade em uma Inglaterra dominada pelo Estado que se torna cada vez mais agressivo, V é um personagem muito humano. Tem falhas, tem um passado triste e, principalmente, assume a postura de um terrorista quando anuncia para o país inteiro através de uma intervenção na TV, que pretende explodir o prédio do Parlamento no dia 5 de novembro. Alguns elementos não são devidamente explicados, como o motivo da data, o que exatamente foi feito à ele para que fosse gerado tanto ódio e como a situação do país chegou a um estado tão irremediável. Apesar disso, a questão sociológica do personagem e a alternância de suas atitudes, fazendo o público sentir suas fraquezas, é incrivelmente exposto, tanto nos quadrinhos quanto na película. O roteiro faz questão de nos apresentar um homem cujo corpo é totalmente coberto por roupas e máscaras e que, no entanto, não tem poderes especiais para deter seus inimigos. Ele quer deter inimigos não somente por questões pessoais, mas acredita estar fazendo um bem para a sociedade. Para ele, a liberdade deve ser estabelecida, mesmo que pra isso ele seja obrigado a utilizar meios não tão honestos ou corretos. Com tudo, V é um personagem dotado de inteligência e bom gosto e isso se torna seus superpoderes e o torna capaz de cativar o leitor/espectador e se torna o elemento-chave de uma história tão bem elaborada.
Marina Lourenço Alves.

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