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CINEMA BRASILEIRO .:. O CINEMA CONTEMPORÂNEO

As décadas de 1970 e 1980 caracterizaram-se sobretudo pela presença da censura militar, a difícil concorrência com o cinema norte-americano e a ação da Embrafilme, empresa estatal encarregada de fomentar a produção e distribuir filmes brasileiros. A Embrafilme estimulou inúmeras adaptações de grandes obras literárias brasileiras e épicos baseados na história oficial do país. Expoentes do cinema novo contrapunham com exemplares menos reverentes desses gêneros (Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade; São Bernardo, de Leon Hirszman sobre livro de Graciliano Ramos) ou experimentavam modos diferentes de alcançar o gosto do público, como Carlos Diegues no musical Quando o carnaval chegar (1972), Paulo Cesar Saraceni no histórico Anchieta José do Brasil (1978), e Ruy Guerra em Ópera do malandro. Arnaldo Jabor, com suas adaptações de Nelson Rodrigues e sua trilogia do apartamento, e Walter Lima Jr. (Inocência), ambos da chamada segunda geração do cinema novo, atingiam, enfim, esse ideal.

Os anos 1970 testemunharam um pequeno surto de semidocumentários (ver Orlando Senna e Jorge Bodanzky) e uma retomada menos radical do experimentalismo (A lira do delírio, de Walter Lima Jr., e diversos filmes de Julio Bressane). Glauber Rocha produziu obras inflamadas no exílio e retornou ao Brasil com o conturbado A idade da Terra. A segunda metade da década foi de aquecimento da produção e do mercado, com o sucesso popular de, entre outros, Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto; Xica da Silva (1976) e Bye bye Brasil (1976), de Carlos Diegues; A Dama do lotação (1977), de Neville D'Almeida; Lúcio Flavio, passageiro da agonia (1978) e Pixote (1980), de Hector Babenco. As comédias do quarteto Os Trapalhões (ver Renato Aragão) são as campeãs de bilheteria da década.

As influências do cinema pós-moderno refletiram-se no Brasil da década de 1980 com o aperfeiçoamento da técnica fotográfica e o fortalecimento de um cinema auto-referencial, especialmente entre jovens diretores paulistas como Chico Botelho, Wilson Barros e Sergio Toledo. Ao mesmo tempo, os temas políticos ganharam força com o fim do governo militar, tanto em documentários sobre movimentos trabalhistas, quanto em ficções como Eles não usam black-tie, de Leon Hirszman, e Pra frente Brasil, de Roberto Farias. Nesta época, a hegemonia do cinema norte-americano sufocava drasticamente os filmes brasileiros. O modelo da Embrafilme, criticado por incentivar privilégios e não contribuir para a industrialização do cinema, foi colocado em xeque e catalizou as discussões sobre a participação do Estado no cinema.

Em 1990, tomou posse o presidente Fernando Collor de Mello, que extinguiu a Embrafilme e outros mecanismos de incentivo, mergulhando o cinema brasileiro em sua maior crise histórica. Seguiram-se quatro anos de paralisação quase total na produção de longas-metragens, ficando para os curtas e o vídeo a responsabilidade de manter algumas câmeras em movimento. Os curtas atingiram certa popularidade em festivais e exibições especiais, consagrando nomes como Jorge Furtado, Nelson Nadotti, Carlos Gerbase e José Roberto Torero.

Após a interrupção do governo Collor, foram criados novos instrumentos de estímulo à produção e sancionada a Lei do Audiovisual (1994), que incentiva empresas privadas a investirem em cinema. Isto somado ao envolvimento de governos estaduais na produção levou a um novo renascimento a partir de 1995, simbolizado pelo sucesso de Carlota Joaquina, princesa do Brazil, de Carla Camuratti. Cerca de 100 filmes de longa-metragem foram produzidos entre 1995 e 1997. Trata-se de um cinema diversificado, tecnicamente bem feito e apto a reconquistar a simpatia do público.

A atividade voltou a atrair profissionais de outras áreas, como a diretora teatral Bia Lessa (Crede-mi, 1996) e a produtora cultural Monique Gardenberg (Jenipapo, 1996). Estreantes talentosos como os paulistas Beto Brant (Os matadores, 1997) e Tata Amaral (Céu de estrelas, 1997), e a dupla pernambucana Lírio Ferreira-Paulo Caldas (Baile perfumado, 1997) somaram-se a veteranos como Walter Lima Jr. (A Ostra e o vento), Carlos Diegues (Tieta do agreste,) e Bruno Barreto (O que é isso, companheiro?, filme baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira). O Quatrilho, de Fábio Barreto, foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro e Terra Estrangeira, de Walter Salles Jr., fez circuito de sucesso em cinemas europeus e festivais norte-americanos.

O cinema brasileiro entrou em alta no século XXI, apesar da fragilidade do sistema de produção. Walter Salles Jr. se confirma como um dos maiores cineastas brasileiros da atualidade. Central do Brasil, O Primeiro Dia, Abril Despedaçado e, em breve, O Diário de Motocicleta, todos de Walter Salles Jr. alcançaram grande qualidade técnica e artística, tendo um bem-sucedido repertório internacional. Recentemente, Cidade de Deus (Fernando Meirelles) e Carandiru (Hector Babenco) foram sucesso de bilheteria nacional, e o primeiro, concorreu a vários Oscar e obteve excelente arrecadação no estrangeiro. O Bicho de Sete Cabeças, O Homem Que Copiava, Amarelo Manga, O Auto da Compadecida, O Homem do Ano, Os Normais, Sexo, Amor e Traição são outros exemplo de produções bem sucedidas. O cinema nacional ainda está longe de se tornar uma indústria consolidada, mas pelo menos a produção nacional foi retomada em termos de quantidade e qualidade.