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A CÂMARA .:. CORPO

Textos fornecido Por Filipe Salles - Home-page pessoal
copyright© by Filipe Salles, 2000.

O corpo é o sustentáculo da câmera, onde se localiza sua empunhadura (que serve para segurá-la; jamais segure uma câmera pela objetiva ou pelo chassi) e as aberturas que permitem o encaixe do chassi e o da objetiva, este último denominado bocal. É fundamental que o corpo permita a vedação completa da luz exterior em seu interior; que possua um sistema de captação de luz (objetiva) e enquadramento (visor), bem como um sistema de transporte contínuo do filme, que veremos a seguir:

No corpo também está localizado o mecanismo grifa/obturador, o sistema de transporte do filme que é responsável pela captação ordenada de um determinado número de fotogramas por segundo, que, quando projetados, dão a sensação de movimento.

O obturador é um semi-círculo que gira continuamente sobre um eixo central, sendo que quando está passando sua parte aberta, o fotograma está sendo exposto, e quando está passando sua parte opaca, o fotograma está sendo trocado pela grifa. Este movimento sucessivo imprime vários fotogramas por segundo ( a velocidade padrão é 24 f.p.s.), como se fossem tiradas várias fotos em seqüência de um determinado assunto.

A grifa opera em sincronismo absoluto com o obturador, promovendo a troca de fotogramas a cada giro.

obturador
Obturador aberto, expondo o filme (1), e fechado, quando a grifa troca
o fotograma (2).

Velocidade de Captação

A alteração na velocidade do mecanismo grifa/obturador permite dois efeitos comuns em cinema: Câmera Lenta e Câmera Rápida. Levando-se em conta que a velocidade padrão de projeção é 24 f.p.s, quando filmamos a mais fotogramas por segundo, por exemplo, 48 f.p.s., a velocidade de projeção não se altera, mas foi captado o dobro de imagens no mesmo tempo de projeção. Assim, quando aumentamos a velocidade de captação a mais de 24 f.p.s, estamos fazendo Câmera Lenta.

Em contrapartida, considerando o mesmo padrão 24 f.p.s, e filmamos a menos quadros por segundo, como por exemplo, 12 f.p.s, temos então a metade das imagens que teríamos a 24 f.p.s, mas sendo projetado sempre a 24 f.p.s. A isto corresponde a Câmera Rápida.

É importante frisar que estas medidas são consideradas levando-se em conta a velocidade de projeção 24 f.p.s., que, se for alterada, também por conseqüência os valores das câmeras lenta e rápida sofrerão alteração.

Laçada

Chamamos Laçada do filme o percurso que a emulsão cinematográfica faz nos roletes de tração da câmara. Este mecanismo de tração auxilia o mecanismo grifa/ obturador a puxar o filme, e com ele funciona em pleno sincronismo. Cada câmera possui uma maneira diferente de se fazer a laçada, que deve ser previamente dominada pelo assistente de câmera antes de iniciar a filmagem. Alguns exemplos de laçada:

       
À esquerda, laçada da ARRI 16S, e à direita, laçada desde o chassi da PANAVISION System 65 .

Podemos, entretanto, diferenciar basicamente dois tipos de laçada: As que são dadas no chassi (ver adiante), e as que são dadas no corpo da câmara. Em geral são laçadas manuais, ou seja, o assistente deve colocar manualmente o filme nos roletes de tração encaixando adequadamente a perfuração do filme. Porém, quando a câmera não trabalha com chassis muito grandes, e o filme não oferece muita resistência ao ser rodado, ele pode ter um mecanismo automático de laçada, como é o sistema das câmaras BOLEX.

Velocidade de Exposição

Da mesma maneira que, numa câmera fotográfica comum, ao alterarmos a velocidade de exposição, faz-se necessária a devida compensação no diafragma, aqui, analogamente, ao aumentarmos ou diminuirmos a velocidade de exposição, esta compensação também deve ser feita. Para calcularmos o valor da compensação, devemos ter em mente a velocidade de exposição padrão, a 24 q.p.s e com o obturador a 180o.: como durante metade do tempo em que o obturador está girando ele expõe o filme e na outra metade ele barra a luz, o tempo necessário para expor o filme não pode ser 1/24 de segundo, pois senão o fotograma imprimiria sua troca e borraria a imagem. Assim, o cálculo procede da seguinte fórmula:

2x = 1/24 , que daí tiramos x=1/48

Portanto, o tempo de exposição padrão é 1/48 de segundo, mas que por razões técnicas, foi arredondado para 1/50 de segundo (facilidade de cálculo).
Podemos então considerar que se a 24 q.p.s. (e obturador a 180o.) a velocidade é 1/50, cada vez que eu dobro a velocidade, corto pela metade a exposição, e vice-versa. Assim, se eu estiver a 48 q.p.s., minha exposição será 1/100, o que equivale a 1 ponto no diafragma.

Então a regra é simples: Cada vez que se dobra a velocidade, devo compensar (abrir) o diafragma em 1 ponto, a cada vez que corto pela metade a velocidade, devo acrescentar (fechar) 1 ponto.

Obturador

O Obturador é um dos mecanismos mais delicados da câmera, pois depende de uma altíssima precisão em seu desenho de fábrica e seu funcionamento, e por isso deve-se ter muito cuidado ao limpá-lo ou alterar sua angulação no corpo da câmera, certificando-se antes que ela não esteja ligada.

O ângulo padrão do obturador é 180o., um semi-círculo perfeito, mas que pode ser alterado se a câmera assim o permitir (nem todas oferecem esta possibilidade). Quando aumentamos o ângulo de abertura, abrimos mais o obturador, o que significa que o fotograma será exposto por mais tempo, sem que haja alteração na velocidade da câmera. O contrário é verdadeiro, ao fecharmos seu ângulo, o fotograma será exposto por um tempo menor. Tomemos, por exemplo, um obturador a 90o.. Seguindo o mesmo raciocínio da compensação de velocidade, verificamos que o ângulo é a metade do ângulo padrão, e, portanto, devemos abrir 1 ponto ao diafragma para compensar a metade do tempo de exposição proporcionado por este obturador. O inverso é verdadeiro, e segue a mesma regra da velocidade de câmera. (obturador a 270o., maior tempo de exposição, e fechamos 1 ponto no diafragma).

Levando-se em conta que nem sempre o obturador abrirá ou fechará em proporções exatas de dobro e metade, muitas vezes o assistente de câmera é obrigado a efetuar alguns cálculos para saber em quanto deve compensar o diafragma nos ângulos quebrados do obturador. Afim de facilitar sua vida, segue uma tabela com os ângulos e suas compensações:

180º
140º
120º
100º
90º
70º
60º
50º
45º
30º
22 1/2º
175º
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
170º
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
f/1.4
1.3
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1.6
1.5
1.4
 
 
 
 
 
 
 
 
2
1.8
1.6
1.5
1.4
 
 
 
 
 
 
2.3
2.1
2
1.8
1.6
1.5
1.4
 
 
 
 
2.8
2.5
2.3
2.1
2
1.8
1.6
1.5
1.4
 
 
3.2
3
2.8
2.5
2.3
2.1
2
1.8
1.6
1.4
 
4
3.6
3.2
3
2.8
2.5
2.3
2.1
2
1.6
1.4
4.5
4.2
4
3.6
3.2
3
2.8
2.5
2.3
2
1.6
5.6
5
4.5
4.2
4
3.6
3.2
3
2.8
2.3
2
6.3
6
5.6
5
4.5
4.2
4
3.6
3.2
2.8
2.3
8
7.2
6.3
6
5.6
5
4.5
4.2
4
3.2
2.8
9
8.5
8
7.2
6.3
6
5.6
5
4.5
4
3.2
11
10
9
8.5
8
7.2
6.3
6
5.6
4.5
4
12.7
12
11
10
9
8.5
8
7.2
6.3
5.6
4.5
16
14
12.7
12
11
10
9
8.5
8
6.3
5.6
18
17
16
14
12.7
12
11
10
9
8
6.3
22
20
18
17
16
14
12.7
12
11
9
8
25
24
22
20
18
17
16
14
12.7
11
9
32
28
25
24
22
20
18
17
16
12.7
11

A Tabela acima indica o diafragma a compensar quando fechamos o obturador a partir de 180o. Na linha superior, os ângulos, e na primeira coluna à esquerda, os valores do obturador padrão. Para usar esta tabela, basta medir a luz normalmente com o fotômetro e depois, usando o diafragma dado a 180o., procurar na tabela o valor do mesmo diafragma com outro ângulo.

As implicações advindas deste recurso são análogas às da fotografia estática: Quando deixamos mais tempo um fotograma exposto, a tendência é que movimentos muito bruscos saiam borrados, ao passo que com menor tempo de exposição, estes movimentos são captados com maior nitidez e estabilidade.