A quinta aventura cinematográfica do Homem Morcego representa uma ruptura total com seus antecessores. Nele você não verá sequer traços dos carnavalescos episódios dirigidos por Joel Schumacher ou dos caricatos episódios ao comando de Tim Burton. A nova aventura é baseada nos quadrinhos criados por Frank Miller na década de 80, intitulada “Batman: Ano Um”.
O filme é dramático e sombrio. Exibe como o menino Bruce Wayne veio a se tornar Batman e este momento tem se mostrado o mais interessante de ser narrado nas adaptações dos quadrinhos para o cinema ou de qualquer trajetória de um Super-Herói, pois se trata da superação dos obstáculos da jornada mitológica do herói. Vide O Homem Aranha, Superman, a nova trilogia Star Wars. Os roteiristas Christopher Nolan e David S. Goyer se aprofundaram bastante para elucidar toda a origem do Cavaleiro das Trevas. Contaram como foi treinado; como decorreu a morte de seus pais; de onde veio o seu trauma, como fabricou seu uniforme e de onde vieram seus equipamentos, sempre de maneira convincente. A história não se detém em simplesmente mostrar friamente como tudo isso se decorreu. Os roteiristas se aprofundaram, dramatizaram e tornaram satisfatoriamente plausíveis; narraram mais sobre a transformação física e psicologia de Bruce do que cenas de ação.
A ambientação está muito próxima ao nosso mundo real alguns anos à frente. "Procuramos pelas texturas do mundo de hoje", disse o diretor Christopher Nolan a repórteres em uma recente entrevista coletiva. A cidade de Gotham poderia ser vista como qualquer metrópole da época atual: suja, empobrecida, violenta, corrompida, com um toque leve de modernidade. Essa foi uma das melhores decisões da produção, pois favorece a solidificar uma empatia junto ao espectador.
Nolan havia dirigido antes apenas Amnésia e Insônia. Dois filmes não voltados para o grande público, principalmente o primeiro. Confesso que não espera muito desse Batman, mas Nolan e Goyer surpreenderam. O filme tem um bom ritmo, principalmente nos dois primeiros terços. A primeira vez que vemos Batman em ação, o diretor muda o foco para os vilões, expondo o medo que estes sentem diante da suposta presença do Homem Morcego. Nolan foi inteligente em acelerar montagem nestas seqüências, com planos bem curtos onde praticamente só podemos ver o vulto do Homem Morcego. Apesar de tornar as seqüências de combate menos intensas, isso está de acordo com as reflexões que o filme propôs, tornando Batman um símbolo meio mítico entre os criminosos. Ninguém consegue vê-lo por mais que uma fração de segundos.
O elenco calha a elevar os aspectos positivos do filme. O que dizer de Christian Bale, Michael Caine, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman e Tom Wilkinson num filme como esses? Bale, o magnífico ator de O Operário, O Psicopata Americano e Velvet Goldmine, é sem dúvida o melhor interprete das cinco versões de Batman para o cinema. Transparecem em suas expressões toda a angústia e ambigüidade na vida de Bruce/Batman. Ele faz isso de maneira simples e direta, tendo total consciência que se trata de um filme para o grande público. Liam Neeson (o principal mentor de Batman), Michael Caine (Alfred) e Gary Oldman (Gordon) estão muito bem em seus papéis coadjuvantes. O restante do elenco faz sua parte e não desaponta, sem grandes destaques.
O alívio cômico do filme vem através de Alfred e Gordon. As gags até são engraçadas, mas destoam do clima sombrio do filme. Na realidade, a ausência delas e não causariam carência ao filme, exceto as que ocorrem nos 5 minutos finais da projeção que, ironicamente, são entoadas por Bale e Freeman.
Em seu terço final o filme se torna menos interessantes, pois as cenas de ação tipicamente holywoodianas tomam conta. Felizmente não há exageros de efeitos especiais em computação gráfica. O filme termina com um saldo positivo e deixando um bem claro que haverá continuações. Torçamos que as seqüências continuem dando maior espaço para o drama em detrimento da ação, o que é incomum nesse tipo de franquia.
Para encerrar, um pequeno comentário. Um filme de entretenimento, ou filme pipoca, como gosto de chamar, deve ser analisado com tal. Batman Begin se trata de entretenimento e nada mais. Levar o filme a sério demais estragaria a diversão que ele pode proporcionar.
Igor Verzola.

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