Segundo Ferro, Trotski acreditava que o cinema "é o melhor instrumento de propaganda" . Na mesma linha, Leite afirma que Lênin, principal líder da Revolução Russa, acreditava que, "com a ajuda dos filmes, as pessoas seriam então levadas ao pensamento comunista e entusiasmadas para a realização de grandes tarefas; tomariam parte na construção da realidade do futuro, desfrutando ao mesmo tempo das variadas vantagens do estímulo artístico" . Isso tudo porque, no cinema, o público se deixa envolver pela história e aceita sem questionar as emoções que a narrativa lhe impõe.
Nesse sentido, os cineastas russos passaram a receber do governo incentivos e subsídios para a produção de filmes com mensagens socialistas, constituindo verdadeiras armas de propaganda política. Serguei Eisenstein foi um desses cineastas e, trabalhando principalmente a montagem cinematográfica, apresenta em seus filmes um grande exemplo de como é possível controlar as emoções do público e, de modo maniqueísta, fazê-lo concordar com a mensagem que o filme carrega. O trabalho de montagem em Eisenstein caracteriza-se pela associação de imagens aparentemente desconexas, a partir do que o espectador deveria fazer suas próprias associações de idéias, atribuindo então um novo sentido para o que é mostrado na tela.
O filme "Outubro" foi encomendado a Eisenstein em 1927, como uma reconstituição histórica para comemorar o décimo aniversário da Revolução Russa, que instalou o socialismo na URSS. Entretanto, para que pudesse receber os subsídios necessários, o cineasta teve de aceitar a intervenção política de Stalin, sendo obrigado a cortar grande parte das cenas com a personagem de Trotski, além de eliminar cenas em que Lênin discursava. Mas tais obstáculos não impediram que Eisenstein fizesse um bom trabalho de propaganda política soviética, em um exemplo de como "a arte poderia ser manipulada a fim de se manipular o povo" .
O maniqueísmo, comum em qualquer produto de propaganda política, faz-se presente em "Outubro", pelo modo como são retratados as diferentes facções da revolução: os bolcheviques caracterizam a maioria entusiasmada, símbolo de força e coragem, ao contrário dos mencheviques, E.S.S.E.R (socialistas revolucionários) e czares, todos vistos como a minoria fraca e apática.
São inúmeras as passagens em que pode-se notar essa manipulação política do cineasta, como nas cenas em que os ministros deixam apenas seus paletós nas cadeiras, sempre vazias, do Palácio de Inverno, numa metáfora de que eles não tinham um poder real, eram meros "fantoches", serviam apenas para cobrir suas cadeiras com os respectivas paletós. Da mesma forma acontece com a montagem paralela entre imagens de animais empalhados e dos ministros: são apenas uma imagem, apenas ocupam um espaço, não servem para nada a não ser de enfeite.
A cena do levantamento da ponte do rio Neva, que separa os bairros operários do centro da cidade é também símbolo da maestria de Eisenstein em controlar as emoções do público. Além de significar explicitamente o desejo da burguesia de impedir o acesso do operário ao poder, a longa duração da montagem cria tensão no espectador, que se acentua com as cenas do cavalo pendurado no alto da ponte aberta. Quando o cavalo cai, morto, a intenção de Eisenstein é "mostrar a violência da revolução para despertar nas audiências o mesmo sentimento de revolta que provocou a verdadeira revolução de Outubro" .
Talvez uma das cenas que melhor explicite o conteúdo propagandístico do filme de Eisenstein seja a cena em que um grande relógio com a hora de Petrogrado aparece circundado por vários relógios menores, que indicavam a hora de outras cidades do mundo (Paris, Nova Yoek, Londres, Xangai), logo após o glorioso final socialista da revolução. Com isso, Eisenstein sugere que Petrogrado estava fazendo história; a partir daquele momento, todo o mundo deveria parar e seguir o exemplo soviético, "acertar o seu relógio" com a hora de Petrogrado, que passava por um dos momentos mais importantes da história.
FERRO, M. Cinema e História. 1992, RJ: Paz e Terra
LEITE, Sidney Ferreira. Serguei Eisenstei e a estética do cinema de propaganda política. In: Rev. Líbero, Pós-Graduação da FCL, III (5), SP, 1o sem.2000
FIGUEIREDO, Carlos L. "O conteúdo propagandístico do cinema soviético: o exemplo da obra de Eisenstein". Disponível em: <http://www.ipv.pt/forumedia/6/16.pdf> Acesso em: 24/03/07
por Tammíris Teles