A maioria das histórias, nos filmes, gira em torno de um personagem central: o protagonista. Mesmo nas histórias com muitos personagens, e com estrutura diferente, cada sub-enredo dentro da história principal tem seu protagonista. Na circunstância dramática básica de "alguém quer alguma coisa desesperadamente e está tendo dificuldade em obtê-la", o "alguém" é o protagonista.
O antagonista da história é a força opositora, a "dificuldade" que resiste ativamente aos esforços do protagonista para alcançar sua meta. Essas duas forças opostas formam o conflito ou os conflitos da história.
Em muitas, o antagonista é uma outra pessoa, o "bandido". Desde Intriga Internacional, passando por Guerra nas Estrelas e Chinatown, até O Exterminador do Futuro, são vários os filmes em que protagonista e antagonista são, clara e distintamente, pessoas diferentes em oposição ativa uma â outra. Nesse tipo de história, o protagonista tem o que se chama de um conflito externo, um conflito com outrem. Mas, em muitos outros filmes, o protagonista é seu próprio antagonista também; a grande batalha é travada dentro do personagem principal, entre dois lados, desejos ou necessidades da mesma pessoa. Entre os casos mais nítidos de conflito interno podemos citar Hamlet e O Médico e o Monstro, mas também há vários exemplos em filme: O Tesouro de Sierra Madre, Uma Rajada de Balas, Um Corpo que Cai e Touro Indomável. Nestes e em muitos outros filmes, o principal conflito da história se dá dentro do personagem central.
Apesar de haver um conflito interno em que protagonista e antagonista são uma mesma pessoa, em geral também existe oposição externa. E, na maioria das histórias bem-feitas sobre um conflito externo, também há um elemento de conflito interno no personagem principal. Boa parte do tempo, as duas coisas se equilibram, mas o conflito predominante, numa história, ou é interno ou é externo. Em Casablanca, a batalha de Rick é interna - envolver-se ou ficar de fora -, entretanto temos o coronel Strasser como manifestação muito real da pressão para que tome uma posição. Em Golpe de Mestre, o protagonista, Johnny Hooker, interpretado por Robert Redford, quer se vingar do homem responsável pela morte do amigo e mentor. Aquele homem é o antagonista e o conflito é externo, entretanto ainda assim temos uma batalha acontecendo no interior do personagem de Redford: será que ele está à altura da tarefa de vingar-se? Em quem poderá confiar? Em Tubarão, o xerife Brody é o protagonista e o tubarão é o antagonista, e aí temos o conflito externo, entretanto Brody tem seus próprios conflitos internos para superar: o medo de água, o desejo de não lutar com o tubarão, de comprar um barco maior. Em Uma Rajada de Balas, o conflito maior se trava no interior de Clyde, com seus próprios impulsos autodestrutivos, entretanto temos o xerife no encalço dele e da gangue como manifestação externa de seu conflito interior.
Um conflito interno, numa história com antagonista externo, ajuda o protagonista a se tornar um ser humano mais complexo e interessante. Uma fonte de conflito externo, numa história onde o grande conflito é essencialmente interno, ajuda a tornar visíveis e palpáveis os dois lados do personagem; esse equilíbrio lhe dá "vida própria". Na verdade, este é o grande nó, o fundamental da roteirização: como mostrar ao público o que vai por dentro do personagem central - ou de qualquer personagem.
Texto extraído do livro Teoria e Prática do Roteiro,
de Edward Mabley e David Howard
